Memoriais 08, 09, 10 e 12 de setembro 2014.

08 setembro 2014

Fomos para os exercícios, as dinâmicas, construções de cena e por fim, à conversa na roda. Durante a construção de cena, eu gostaria de ter participado mais da elaboração. Estava tendo algumas ideias, mas não foram aceitas pelo grupo. Acho que esse momento inicial, de elaboração da cena, poderia ser feito em parte com a discussão, e de outra parte em silêncio, permitindo que cada ator construa ele mesmo o seu personagem, sua movimentação, etc. porque acho eu normal que todo ator tenha um pouco de diretor também.

09 setembro 2014

Silêncio. Sensações. Estímulos. Pensamentos, percepções, ideias... Foi assim que começou a oficina de terça, sem explicações. Meu campo sensorial se limpou, ficou mais claro, como numa prática de meditação. Estávamos deitados no chão da sala, no escuro total. Música tocava ao fundo. De repente alguém nos ajudou a levantar, ainda cegos, sentimos toques de texturas, sons, cheiros, gostos, tudo do mais diverso, que me surpreendia, dava ansiedade, mas aguçavam ainda mais meu campo sensorial. Eu estava com atenção redobrada. Por um momento, me imaginei um feto no útero, recebendo todo o tipo de estímulos sem nenhum controle.

Em seguida, fomos convidados a nos tocar, ainda cegos. Medo, pudor, curiosidade, excitação, foi o que senti. Tive de administrar tudo isso. Senti com as mãos o corpo desconhecido e ao mesmo tempo provoquei-lhe as sensações, sabendo que ali não era só um objeto, era uma pessoa. Houve respeito versus o desejo de explorar mais fundo... Tive que me equilibrar nisso.

Quando as luzes se acenderam, era como se fossemos outros. Pareceu um ritual de passagem. Fizemos a roda de conversa, muitas risadas, troca de percepções, assimilamos um pouco, nos saímos bem.

Segundo momento da oficina: criação de cenas. Dessa vez, explorando o campo sensorial, procurando evitar falas, diálogos ou ênfase na história (foi assim que entendi). Saí com meu grupo para elaborar a tarefa. Foi um pouco difícil começar, pois não tinha tema, as balizas eram vagas, a não ser que tinha de ser algo no clima shakespeariano que vínhamos construindo. Mas tinha que começar de alguma forma. Alguém há de concordar que muita coisa boa na vida começa sem a gente saber mesmo como começou... Uma bela amizade, um namoro, uma viagem legal... Então eu propus um modo de criação mais democrático: cada um se preocupava em construir seu personagem, dentro das balizas propostas, e daí íamos às relações. A construção da cena foi acontecendo enquanto fazíamos, sem saber ao certo o que estávamos fazendo. Fomos guiados pelo método da física moderna, a de causa e efeito: uma ação resultaria numa resposta do outro, e daí as relações se construíam. Houve um alvoroço por não se saber pra onde ia o barco, mas paciência, a cena foi se construindo de sua base aos detalhes. Sinto que a cena se construía ainda durante a apresentação final para o público.

Agora, foi muito interessante o público notar coisas na cena que não planejamos. Foram improvisos, ou ainda acidentes, que geraram percepções, pensamentos nos expectadores. Então, sobrou algo da cena para o público ainda construir com o seu olhar. Assim, admirei o fato de cada expectador ter imaginado uma história diferente da cena, muitas vezes diverso da nossa proposta. De alguma forma, mexemos com o expectador. Inspirar pensamentos, desenterrar-lhes as memórias, provocar-lhes um sonho, acho que o acerto passa por aí. Se não for bom, não foi, mas vale a pena trabalhar fora das já desgastadas noções, regras, costumes, vícios e tal: pode-se transcender daí. Ou transgredir!

10 setembro 2014

Fabíola substituiu Nando Zambia neste dia. Iniciou com exercícios para movimentar as principais articulações do corpo e daí ensaiar alguns movimentos ritmados. Ainda não tenho nenhuma coordenação motora! Os movimentos que eles ensinam exigem certo nível de coordenação e consciência corporal. Dá muita vontade de acompanhar, espero que tenhamos outros encontros desses pra ver se eu pego o jeito...

Daí fomos para a composição de performances, criadas livremente. Foi muito divertido deixar a imaginação fluir pelo corpo, pontuada pelo batuque.

Na segunda parte, Franklin coordenou as atividades. Fizemos criações de coros associadas a atuações, entre diálogos, defesas de idéias, situações coletivas e uma cena ao final. A tarde fluiu bem, refizemos cenas do dia anterior, houve muito aprendizado e melhoramento.

12 setembro 2014

            Ando pelas ruas do centro da cidade, vejo vendedores nas lojas, ambulantes, tentam convencer alguém a comprar sua mercadoria.

            _Olha a água indaiá! Dilma mandou baixar, é só um real! Não engorda não, é indaiá viu Daiane, é indaiá!!

            Fazem jogos com quem passa, brincam, atraem a atenção, procuram os olhares. Até os mendigos na calçada argumentam com seus gestos, falas, olhares. Alguns convencem, outros não. Sigo para o Vila Velha.

            Nesse dia conhecemos Leno, professor de capoeira que nos rendeu uma tarde bem alegre e produtiva – e uma dor no meu ombro direito, provavelmente uma queda de três ou quatro mal feita. Eu já queria voltar a fazer capoeira aqui em Salvador, justamente Angola. Conhecia só um pouco da regional.

            A roda de capoeira também acaba sendo um palco. Se dois amigos entram nela, eles não lutam sério, mas representam uma luta. Segundo Leno, em certas situações por aí a luta pode ficar séria, é necessário ficar ligado, não tirar os olhos do outro. A ligação pelo olhar, o diálogo corporal, quando um diz e outro responde, coordenação e harmonia, ritmo, tempo... Maravilha!   

            Em seguida veio Cláudio com seus jogos. Fizemos ao final construções de cenas paradas para Macbeth, ou, traduções da leitura em fotografia. Voltei mais atenção para minhas atitudes corporais. Este estudo/exercício deve servir para melhorar as atuações em movimento.

            Isso tudo tem me feito refletir sobre a atitude no momento, estar presente no falar, no olhar, na interação com os outros. Qual a energia que colocamos na conversa, no encontro, no abraço? Passou a oportunidade, aproveitei bem? Quando acesso meus sentimentos mais profundos e procuro acessar o correspondente em alguém que está diante de mim, estabeleço uma conexão especial. Nossos pés se firmam no que há de mais seguro e verdadeiro em nós. Seguimos!       

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